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Saúde mental no século digital: O Papel das plataformas virtuais de apoio

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12 de nov. de 2023
7 min de leitura

Por: Igor Fernandes 


Com a chegada de uma revolução tecnológica e informacional, o acesso a informações foi ampliado. Dessa maneira, campanhas como o Janeiro Branco e o Setembro Amarelo ganharam maior visibilidade. Ao mesmo tempo, de acordo com o último mapeamento global de transtornos mentais, realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil apresentou a maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo. O debate é presente no país tendo sido, inclusive, tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em 2020, desse período em diante, o Governo Federal intensificou os investimentos na área. 


De acordo com dados da OMS, no primeiro ano da pandemia, os registros de casos de ansiedade e depressão aumentaram em 25%. Durante esse período, muitos brasileiros procuraram ajuda para questões relacionadas à saúde mental. Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, em 2020, indicou que quase 30% buscaram apoio profissional, enquanto outros 34% expressaram interesse em receber apoio psicológico, principalmente para lidar com ansiedade e estresse.


O Governo Federal adotou medidas para apoiar a saúde mental dos brasileiros por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo a implementação da Linha Vida. que ofereceu teleconsultas para lidar com os impactos do isolamento social. O Ministério da Saúde destinou mais de R$ 45 milhões para essa iniciativa.

 


PACIENTES E SUAS HISTÓRIAS


Por: Maria Eduarda Porto 


Diante da emergência de saúde pública internacional, o distanciamento social e as medidas para conter o vírus da Covid-19, milhares se isolaram dentro de suas casas. A reclusão pode ter protegido essas pessoas quanto à transmissão da doença, mas provocou estragos para a saúde mental de parte delas.


O aumento na taxa de tentativas de suicídio, do sofrimento psicológico e dos transtornos mentais, nesse período, revelava que o estado psicológico de muitos demandava atenção, mas a sobrecarga dos sistemas de saúde, a diminuição de recursos e o isolamento social impactavam nos cuidados relacionados à problemas psíquicos.


No Brasil, de acordo com o responsável por um estudo realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Alberto Filgueiras, em parceria com o pesquisador Matthew Stults-Kolehmainen, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, de 6,9% a 9,7% da população apresentavam sintomas de estresse agudo. Esse índice corresponde a dados levantados entre os dias 20 e 25 de março e 15 a 20 de abril de 2020. A mesma pesquisa detectou que a depressão passou de 4,2% para 8,0%; e a crise aguda de ansiedade subiu de 8,7% para 14,9%, no decorrer desse estudo.


A enfermeira Karine Barbosa, 26 anos, descreveu o período como um momento muito difícil na vida dela. Longe dos pais e reclusa em casa, sem poder ter rotina, a jovem chegou a  pensar em tirar a própria vida. “Uma noite, eu estava com uma crise de ansiedade muito forte, e aí eu peguei o celular e liguei para uma amiga porque eu precisava falar com alguém, senão eu iria fazer uma besteira muito grande, já estava pensando em tomar remédio, pensava certinho os remédios que eu tinha que tomar.” 


De acordo com a enfermeira, o transtorno de ansiedade já existia antes do isolamento social, mas foi potencializado pelo cenário. “Eu sentia crise de ansiedade o tempo inteiro, antes de dormir, na hora da refeição, eu sentia falta de ar e não conseguia comer, eu já não conseguia mais fazer as coisas que eu fazia no dia a dia”.


Assim como ela, Rafael Gonçalves, 21 anos, estudante de Nutrição, também teve a saúde mental agravada durante a pandemia. Diferentemente da jovem, ele foi diagnosticado com neurodivergências desde criança. Ele usa medicação e já fez o acompanhamento especializado, algumas vezes, pelo SUS. Devido à pandemia, sentiu necessidade de voltar ao tratamento.“Tenho transtorno de ansiedade generalizada com quadro de depressão, o transtorno de ansiedade pode se manifestar com sintomas físicos e sintomas psicológicos e a depressão também.”.


Os dois jovens já passaram pelo projeto Proteger-se, uma iniciativa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em parceria com outras instituições. Juntas, elas unem forças e fornecem um serviço de suporte à vida com atividades on-line e presenciais, como psicoterapia pela internet com profissionais da área da saúde, acolhimento com escuta ativa, ações de prevenção ao suicídio, além de aulas de meditação. 


Para a enfermeira, o projeto foi um divisor de águas e considera que ter procurado ajuda foi a melhor decisão que já tomou. “Eu não tinha condições de procurar um psicólogo e pagar. O Proteger-se ofereceu tudo, tudo o que eu precisava e de graça.”


Karine Barbosa fez a psicoterapia pela internet por mais de seis meses, além de aulas de meditação em grupo on-line, com algumas interrupções e recaídas. “Hoje, a minha qualidade de vida é outra. Eu resolvi coisas que internalizei demais por muitos anos”.


Para Rafael Gonçalves, o suporte digital guiou seu projeto de vida. “Eu usei tanto o serviço que agora eu quero participar e poder ajudar as pessoas igual eu fui ajudado”. Ele decidiu se voluntariar e desde setembro de 2023 dedica parte do tempo ao projeto. O estudante de Nutrição oferece consulta em casos de transtornos e distúrbios alimentares relacionados a problemas de saúde mental.


Tanto Barbosa quanto Gonçalves reforçam que só puderam se tratar depois de descobrirem e entenderem os sintomas que sentiam, e, para isso, foi essencial pedir ajuda. “O pessoal da nossa idade, geralmente, passa pelos mesmos problemas e acha que é o único, mas não é, está todo mundo no mesmo barco. Todo mundo pode procurar ajudar, pode se sentir vulnerável e depender de outra pessoa, porque a gente não está sozinho, nós precisamos do outro”, reforçou o estudante.



O PROJETO PROTEGER-SE E A LUTA PELA VIDA


Por: Murilo Cardoso 


O Projeto Proteger-se é uma rede de suporte de assistência à vida. Ele foi criado em abril de 2020, em plena pandemia, em Uberlândia. O objetivo era atender os pacientes de maneira 100% on-line. O serviço era destinado a alunos, professores e funcionários da UFU.


A paralisação das aulas e de muitos setores da Universidade, em março de 2020, fez com que os alunos se afastassem do ambiente acadêmico e, consequentemente, tivessem a rotina alterada. Muitos estudantes que não moravam em Uberlândia ficaram impossibilitados de voltar para casa. Durante esse período, surgiu o Proteger-se. Segundo uma das fundadoras e psicólogas ativas no projeto, Karine Zago, no início das atividades, a ideia era manter o projeto por, no máximo, dois meses, já que não existia a perspectiva de uma pandemia tão duradoura e a expectativa era de ser apenas uma fase. O tempo foi passando e a demanda foi aumentando, por isso passou a ser aberto para atendimento geral, não apenas à comunidade acadêmica.


Em três anos e meio, o Proteger-se já atendeu mais de 7.300 pacientes e atualmente acompanha mais de 2.000. Apesar disso, apresenta dificuldades financeiras, já que se trata de um projeto de extensão e conta com dez bolsistas. Segundo a psicóloga, a Pró-Reitoria de Extensão (Proexc) da UFU e a Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae) ajudam na luta pela permanência e crescimento do Proteger-se, com financiamento de bolsas para os alunos. Zago também pontua que um dos recursos para apoiar o andamento do projeto são as parcerias com o Instituto de Psicologia, da Residência Multiprofissional e dos estagiários recém-formados ou prestes a se formar. Hoje, existem 70 psicólogos ativos no Proteger-se, atendendo diariamente e simultaneamente seus pacientes. 


O Proteger-se também oferece atendimentos personalizados, através de ligações ou via WhatsApp, para pacientes que têm dificuldades tecnológicas, por falta de acesso aos equipamentos ou de conhecimentos digitais. O projeto já ofereceu consultas em outros idiomas, para isso contou com a colaboração de tradutores e também em linguagem de sinais. “A gente percebeu que o Proteger-se pode salvar vidas e tem feito isso”,  comenta Karine. 


O projeto atende de segunda a sexta das 11 às 21 horas, por meio do site. Basta efetuar o acesso e entrar na fila de atendimento. A página do Instagram é @projetoproteger.se, onde eles postam muitos conteúdos informativos e abrangentes dentro do tema saúde mental.



A IMPORTÂNCIA DE ORGANIZAÇÕES DE APOIO


Por: Maria Eduarda Koyama


No Brasil, a busca por apoio emocional e a prevenção ao suicídio são assuntos que têm recebido destaque devido ao número de casos que vêm aumentando. De olho nessa realidade, algumas instituições oferecem apoio gratuitamente, como é o caso do Centro de Valorização da Vida (CVV).  


O CVV conta com a participação de voluntários como Jorge, nome fictício dado a um deles, que não pode ser identificado, já que o trabalho é sigiloso. Ele contou que são realizados plantões semanais de quatro horas. Jorge relatou que sempre sentiu vontade de ajudar ao próximo e viu no CVV a oportunidade para isso. Os voluntários do Centro passam por um treinamento extenso que inclui aspectos teóricos e práticos do apoio emocional. 


Alinhado à valorização da vida, outro importante pilar do CVV é o anonimato, que tem como objetivo proteger a identidade e a privacidade das pessoas que procuram pelo apoio e dos voluntários. Esse sigilo também é visto como um facilitador para quem usa o serviço no sentido de não ter medo de julgamentos, exposição ou constrangimento. “O anonimato também evita a formação de vínculos de dependência ou apego, que podem prejudicar a relação de ajuda”, comentou o voluntário.


Jorge revelou que suas responsabilidades vão além de atender telefonemas ou responder chats. Os voluntários buscam compreender o conceito de ajuda, o respeito à pessoa que procura o serviço, além de entender os limites do apoio oferecido pelo Centro. “Ser voluntário do CVV transcende o atendimento em nossos plantões, pois aplicamos o jeito de ser CVV enquanto filosofia de vida.”


Os voluntários se revezam no atendimento, mas existem pessoas disponíveis a ouvir relatos e desabafos 24 horas por dia, sete dias por semana. “Trabalhamos na prevenção ao suicídio e no apoio emocional atendendo, voluntária e gratuitamente, todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail, pessoalmente ou por chat”, relatou o voluntário.


Para além do atendimento remoto, o CVV realiza também ações comunitárias, palestras e eventos em empresas, associações de bairro, comunidades e escolas. Alguns postos oferecem apoio à pessoas que tentaram tirar a própria vida, além de cursos e do programa Caminho da Renovação Contínua, que consiste em encontros semanais de duas horas. O objetivo é promover uma melhor compreensão de coletividade e promover o autoconhecimento a partir da troca de experiências. 


O CVV também possui o Hospital Francisca Júlia, em São José dos Campos, que disponibiliza 90 leitos para o atendimento de pessoas com transtornos mentais, pelo SUS, e 36 leitos para atendimento a convênios e particular, que atende também os dependentes químicos. Além disso, o CVV promoveu e viabilizou a introdução do Programa Amigos do Zippy no Brasil, para crianças de seis a sete anos de idade, que tem como objetivo desenvolver as capacidades dos pequenos para lidar com as dificuldades do dia a dia.


Para se tornar um voluntário da Organização, assim como Jorge, basta acessar o site e se inscrever. É necessário ter mais de 18 anos e dispor de pelo menos quatro horas semanais para o trabalho. O CVV oferece um curso preparatório gratuito, que pode ser feito presencial ou virtualmente. Durante e após o curso, há etapas de seleção para garantir que os interessados estejam alinhados e aptos para o trabalho. Para quem precisa do atendimento, o número é 188.





 
 
 

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